image: Communication on the couch
Credit: Riki Blanco
Os media, com a Internet à cabeça, têm vindo a expandir a sua área de influência e a homogeneizar drasticamente as narrativas através das quais damos sentido ao mundo, para além da esfera estritamente mediática. Este fenómeno de contágio estende-se a diversos territórios, do privado e íntimo ao político, ao cultural e ao artístico, sob a forma de um quase monopólio do discurso. Esta é uma das principais conclusões de um estudo da Universidad Carlos III de Madrid (UC3M) que analisa a dimensão e os efeitos do discurso dominante na, e sobre a, Internet, na perspetiva da teoria da comunicação, dando especial atenção ao dispositivo das redes sociais.
“Os cenários construídos a partir das formas digitais de interação mediática caracterizam-se por gerar simulacros de transparência discursiva, pela negação das formas de narrativa como modeladoras da realidade e pela apologia de uma suposta factualidade para além da narrativa”, indica Pilar Carrera, professora do Departamento de Comunicação da UC3M, autora de ”La comunicación en el diván. Efectos políticos del imaginario digital” (Cátedra, 2025). “Do 'Big Brother' ao 'Big Data', este ensaio pode ser definido como uma análise do inconsciente mediático e dos seus efeitos políticos numa sociedade que se articula cada vez mais em torno da lógica do 'entretenimento'”, acrescenta.
Combinando elementos da psicanálise, da filosofia e da teoria crítica dos media para explorar o impacto do ecossistema digital na subjetividade e na construção do poder, Carrera argumenta que a Internet, na sua dimensão de meio de comunicação de massas, produz um ambiente em que as estruturas simbólicas geradas pela coexistência de discursos e sistemas de mediação concorrentes (condições necessárias para a democracia) ficam desgastadas, dando lugar a novas formas de controlo camufladas de transparência e de empowerment.
Dada a manifesta reciclagem entre a lógica do capital, do poder e dos meios de comunicação social, as implicações desta investigação são evidentes. Pilar Carrera insiste em que a tecnologia não deve ser confundida com a lógica dos media, uma confusão muito comum e deturpadora. O que está em causa não é a tecnologia, nem se trata de entoar um qualquer refrão “ludita”, nostálgico e retrógrado. A “falácia da tabula rasa e os mitos da desintermediação têm-se revelado bastante úteis para desviar a atenção das estruturas de poder que gerem e orquestram o alegado ‘ruído’ da Internet, um meio em que, na realidade, como em qualquer meio de comunicação de massas, tudo é planeado e controlado”.
Pilar Carrera salienta ainda que o recuo para uma privacidade totalmente mediatizada e completamente desligada da pólis, como se foi confirmando ao longo das últimas décadas e se consolidou definitivamente durante a pandemia da COVID-19, representa, em termos de imaginário, um retrocesso aos regimes pré-democráticos.
Para efetuar esta análise, a autora recorre a uma metodologia interdisciplinar que combina o estudo de casos mediáticos com uma abordagem filosófica. Examinando fenómenos como a hiperconectividade, a cultura do clickbait e a manipulação algorítmica do discurso público, a autora evidencia como o ambiente digital gerou uma narrativa imperialista e determinista capaz de obliterar a pluralidade do mundo e a possibilidade de mudança: “É um ato de enunciação fraudulenta identificar a arquitetura da Internet com a arquitetura da sociedade no seu conjunto e, mais ainda, com a realidade”.
A investigação aponta também para aspetos relacionados com o discurso mediático dominante sobre a IA, em que a noção de responsabilidade, já de si muito desgastada (imputada primeiro aos “utilizadores” e agora a um qualquer algoritmo “descontrolado”, e não aos proprietários das diferentes plataformas), é intencionalmente ainda mais esbatida: “O discurso dominante sobre a IA é, ao mesmo tempo, miraculoso, apocalítico, omnipotente, ocultista..., uma verdadeira mistura testamentária e astrológica. Entrámos na fase do tarot do médium”. Tudo isto, sublinha-se, responde a razões sobretudo de ordem estritamente prosaica, a questões económicas e de poder. “A narrativa digital é apenas um reflexo de si mesma, da sua própria lógica, camuflada sob uma aparente polifonia babélica de utilizadores globais”, conclui Pilar Carrera.
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