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Estudo revela o funcionamento cerebral de torcedores de futebol

Utilizando equipamento de Ressonância Magnética, pesquisadores desvendam os mecanismos neurais por trás da cooperação entre torcedores de times de futebol.

D'Or Institute for Research and Education

A necessidade de formar grupos sociais, como os religiosos, partidos políticos ou de torcedores de times de futebol é uma característica muito marcante e única dos humanos. Diversos estudos demonstraram que indivíduos tendem a beneficiar membros de seus próprios grupos sociais, justamente pelo fato de possuírem uma maior identificação recíproca, característica essencial para a evolução da espécie.

Novo estudo publicado no último dia 23 de novembro na revista científica internacional Scientific Reports (do grupo Nature), aponta, pela primeira vez, o funcionamento cerebral por trás de decisões altruístas - que visam aumentar o bem estar de outra pessoa - entre torcedores de futebol, esclarecendo as bases neurais para o comportamento pró-social entre membros de um mesmo grupo.

"O pertencimento a grupos culturais, além da família, é uma característica extremamente relevante para a sobrevivência humana, o que torna fundamental a investigação de suas bases neurais", afirma o Dr. Jorge Moll Neto, Presidente do Instituto D'Or e neurocientista autor sênior do estudo.

Para isso, os pesquisadores recrutaram 27 torcedores de times de futebol do Rio de Janeiro, local onde a pesquisa foi desenvolvida. Dentro de uma máquina de Ressonância Magnética, torcedores de Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense tiveram de decidir se gostariam de doar determinadas quantias em dinheiro para torcedores anônimos de seus times, para não-torcedores, ou se preferiam não doar, ficando com o dinheiro para si. Enquanto isso, o equipamento de Ressonância captava, detalhadamente, o funcionamento cerebral dos torcedores enquanto tomavam as decisões acerca das doações.

Para o Dr. Tiago Bortolini, do Instituto D'Or de Pesquisa Ensino e autor principal do estudo, "torcedores de futebol compõem o que chamamos de grupos naturais, que possuem enorme engajamento na vida real, e fornecem uma oportunidade única de estudar uma característica universal de humanos, que é o pertencimento de grupo".

O objetivo do estudo foi investigar o mecanismo cerebral responsável pela motivação altruísta entre membros de um mesmo grupo social. Em outras palavras, quais características do cérebro de torcedores são responsáveis por esse comportamento?

Diferente de grande parte dos estudos prévios, os pesquisadores adicionaram um elevado grau de dificuldade para que as doações fossem realizadas: a quantia ofertada durante as doações era escolhida pelos próprios torcedores, mas dependia da força com que eles apertavam um sensor em sua mão.

"Para fazerem as doações, os torcedores tinham que se esforçar bastante, colocando muita energia sobre o sensor. Ou seja, era necessária enorme motivação para que efetuassem doações em grandes quantias", explica Dr. Bortolini. De acordo com os pesquisadores, isso permitiu medir a real motivação dos torcedores durante as tarefas.

Os resultados das doações (medidas pela força empregada em cada doação) corroboraram estudos prévios, mostrando que torcedores de futebol tendem a se esforçar mais para beneficiar membros do próprio grupo (time), quando comparado com o esforço que fazem para doar para não-torcedores. Uma força ainda maior foi empregada quando as doações eram feitas para eles mesmos.

Para desvendar o que acontecia no cérebro enquanto doavam, os pesquisadores analisaram as ativações cerebrais durante todas as doações, independente de qual grupo era beneficiado (o próprio torcedor, torcedores do mesmo time, ou não-torcedores). Como resultado, uma área cerebral, chamada córtex órbito-frontal medial, mostrou aumento da atividade. Para os pesquisadores, "esse resultado está de acordo diversos achados científicos que evidenciam que esta área é extremamente importante para a avaliação de custos e benefícios, e que independe de quem é beneficiado na situação".

Tendo em vista a sua importância para tomada de decisão e valores, os pesquisadores decidiram investigar a fundo como o córtex órbito-frontal se relaciona com outras áreas do cérebro de torcedores de futebol. A análise revelou uma íntima relação desta com o córtex cingulado subgenual - área cerebral envolvida em afiliação, pertencimento de grupo e decisões altruístas, apenas durante doações para torcedores do próprio time.

"Esclarecer os mecanismos cerebrais envolvidos no pertencimento de grupo e ações pró-sociais é o primeiro passo para entender melhor esse fenômeno, e possivelmente, modular (induzir aumento ou diminuição de atividade) esses circuitos neurais em laboratório a fim de observar seus impactos sobre o comportamento", completa Dr. Bortolini.

O estudo é fruto de parceria entre o Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino, Instituto Max Planck e Universidade de Leipzig, Alemanha, King´s College London, Reino Unido e Centre National de la Recherche Scientifique, França e foi financiado por CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), ANR (Agence Nationale pour la Recherche) e Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino.

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