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Hormônio biotecnológico reduz custos de induzir ovulação em rebanhos

Além de sincronizar o cio, o hormônio também é usado para antecipar a puberdade e obter superovulações em matrizes

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo

A startup Kimera , de Ribeirão Preto (SP), Brasil, produziu a primeira versão biotecnológica do hormônio gonadotrofina coriônica equina (eCG), amplamente usado para induzir e sincronizar o cio em bovinos e suínos, com o objetivo de otimizar os resultados da inseminação artificial nesses rebanhos.

Já testado em ambas as espécies, o novo eCG recombinante (ou r-eCG) mostrou-se tão eficaz quanto o tradicional, com a vantagem de ter um custo de produção entre 30% e 50% menor, segundo a empresa, e ainda eliminar o polêmico uso de éguas prenhas na produção do hormônio. É que o eCG tradicional, desde que começou a ser empregado na reprodução de rebanhos, há mais de três décadas, é obtido a partir do sangue de éguas prenhas, resultando com frequência em maus-tratos, abortos recorrentes e morte prematura desses animais.

"O hormônio da Kimera é totalmente produzido em laboratório sem a necessidade de extração de sangue das éguas ou de qualquer outro animal e a um custo bem menor", explica Camillo Del Cistia Andrade, doutor em genética pela Universidade de São Paulo (USP), coordenador da pesquisa e sócio-fundador da Kimera.

A demanda pelo eCG aumenta à medida que se amplia o uso da inseminação artificial como ferramenta básica para acelerar o melhoramento genético e o aumento da produtividade dos rebanhos. Afinal, o sucesso do procedimento depende de prever o momento de ovulação das fêmeas. Além disso, poder inocular muitos animais ou o rebanho de uma vez reduz os custos da inseminação e permite sincronizar as outras etapas da produção, otimizando todo o processo produtivo.

Hoje, pecuaristas de todos os portes usam a inseminação artificial e cada vez mais lançam mão de hormônios reprodutivos para sincronizar o cio dos animais. Em 2010, a técnica, conhecida por Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF), já representava metade dos protocolos de inseminações artificiais realizadas no país.

A IATF, aliás, foi um dos elementos que possibilitaram ao Brasil expandir seu rebanho bovino em 40% desde que o eCG começou a ser usado, há cerca de 25 anos, e tornar-se o maior exportador de carne do mundo. Além de sincronizar o cio dos animais, o hormônio também é usado para antecipar sua puberdade, obter superovulações em matrizes e reverter rapidamente o período de inatividade sexual que se segue à separação da cria, aumentando a fertilidade das fêmeas.

Transferência de tecnologia

A Kimera foi criada em 2014, com o apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), e cresceu incubada no Supera - Parque de Inovação e Tecnologia de Ribeirão Preto, com o objetivo de desenvolver o eCG recombinante e produtos similares para repassar essas tecnologias às empresas.

A produção do eCG em laboratório foi possível porque Andrade conseguiu clonar o gene responsável pela produção de eCG e inseri-lo em células cultivadas que se encarregam de produzir o hormônio, que posteriormente é purificado. Com o apoio da FAPESP, a empresa desenvolveu um processo biotecnológico inovador, cujo patenteamento já foi solicitado em regime de cotitularidade com a USP.

Na Fase 1 do PIPE, realizada entre setembro de 2014 e maio de 2015, a Kimera produziu o hormônio em escala laboratorial e realizou os primeiros testes, em ratos. Posteriormente, a empresa realizou testes comparando os resultados da aplicação do r-eCG recombinante com o eCG produzido em fêmeas da raça nelore que já tivessem parido ao menos uma vez: 127 receberam o eCG e 50 a sua versão recombinante. Todas as vacas ovularam e foram inseminadas, tendo sido a taxa de prenhez de 50,2% no caso do hormônio procedente de éguas e 48% no eCG recombinante, uma diferença estatisticamente desprezível. Os testes com suínos apresentaram resultados similares e a expectativa é obter o mesmo sucesso com caprinos e equinos.

Na Fase 2 da pesquisa, iniciada em novembro de 2016 e em andamento, a empresa objetiva fazer o escalonamento do eCG, ou seja, estudar as melhores formas para a sua produção em escala maior.

Em paralelo, a Kimera iniciou contatos com algumas indústrias farmacêuticas que já produzem o hormônio para verificar seu interesse em adquirir a nova tecnologia e produzirem elas mesmas o novo insumo. Atualmente, as indústrias adquirem de produtores argentinos e uruguaios o plasma equino que é a base para a produção do eCG

"Buscamos um parceiro privado para a fase final necessária para a obtenção do registro do produto junto ao Ministério da Agricultura, que é a construção de uma planta-piloto com capacidade de atender ao menos 10% do mercado nacional", explica Andrade.

Segundo ele, embora uma planta de produção de moléculas recombinantes tenha especificidades, também tem muito em comum com boa parte da infraestrutura que laboratórios de grandes empresas já possuem. "A parceria aceleraria a entrada do produto no mercado, o que é do interesse de todos porque se trata de um produto inovador, com elevado potencial de inserção nacional e global, tanto pelos seus custos menores como por atender à demanda global por mais ética e sustentabilidade na produção desses hormônios para reprodução animal", explica Andrade.

Enquanto conclui esse projeto de pesquisa, sua equipe já está estudando a possibilidade de trabalhar com o desenvolvimento de novos hormônios e vacinas recombinantes.

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Sobre a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) é uma das principais agências públicas brasileiras de fomento à pesquisa. A FAPESP apoia a pesquisa científica e tecnológica por meio de Bolsas e Auxílios a Pesquisa que contemplam todas as áreas do conhecimento. Em 2016, a FAPESP desembolsol R$ 1,137 bilhão, custeando 24.685 projetos, dos quais 53% com vistas à aplicação de resultados, 39% para o avanço do conhecimento e 8% em apoio à infraestrutura de pesquisa. Saiba mais em: http://www.fapesp.br.

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